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A História da Fazenda

A História da Fazenda

A Fazenda São Clemente, localizada em Boa Sorte, 5º distrito do município de Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro, foi formada no século XIX, durante o ciclo do café, e atravessa quase dois séculos, testemunhando a importância e imponência da propriedade por onde circulara Francisco Clemente Pinto, Comendador da Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, Oficial da Imperial Ordem da Rosa e Conselheiro da Casa de Caridade de Cantagalo. Francisco Clemente Pinto, cafeicultor, foi proprietário de dez fazendas: São Clemente, Mata Porcos, Bela Vista, Itaocara, Valão do Barro, Pedra Lisa, Serraria, Ibipeba, Ipituna e Casa Branca. Não se casou. Nasceu em 1803 e faleceu em 1872. Encontra-se sepultado no Cemitério São João Batista, no município de Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro.

Após o falecimento do Comendador, a Fazenda São Clemente foi herdada pelo sobrinho homônimo, em 27/8/1873, em virtude de sentença, na qualidade de universal sucessor testamentário. O herdeiro Francisco Clemente Pinto, engenheiro formado na Bélgica, “parente dos Condes de Nova Friburgo e São Clemente, homem muito conhecido pelas ideias progressivas e o cavalheirismo”1, muito se interessou pelo desenvolvimento da produção das grandes propriedades de café.

A Fazenda São Clemente, em seu apogeu, era formada pela Sesmaria São Clemente, medida e demarcada, segundo consta da carta de sentença de 04/02/1819, e terras anexadas, pelo Comendador, em 22/01/1858 e 27/02/1861.

Tinha a fazenda uma área de 700 alqueires e, em 1883, contava com 177 escravos e 750.000 pés da rubiácea.

Francisco Clemente Pinto nasceu em 11/09/1843, tendo sido batizado no dia 07/04/1844, “no oratório da Fazenda São Clemente”, conforme assento de batismo. Foi padrinho, Francisco Clemente Pinto, por procuração, apresentada por Manoel Clemente Pinto, e madrinha, Dona Umbelina Carolina Viana Pinto.
Em 14/09/1868, Francisco Clemente Pinto casou-se com Eulália Amélia de Oliveira Barcelos, que passou a chamar-se Eulália Clemente Pinto, com quem teve nove filhos. Faleceu em 1921.

“… Com quanto contasse com grande número de alqueires de terra, pouco relativamente produzira outrora por falta de máquinas e outras causas. Já montara porém, aparelhos modernos Lidgerwood, convenientemente dispostos.

Era o café trazido do terreiro em cestos (grande inconveniente aliás, quando poderia ser feito tal serviço mais economicamente, empregando-se trilhos), para uma moega, de onde por meio de um elevador caía noutra, disposta em terceiro compartimento, em comunicação com o descascador. Daí saía por si mesmo impelido por um ventilador; vindo ainda à primeira moega para ser trazido a outra no segundo compartimento, para cair sucessivamente no separador e brunidor, de onde saía a ser escolhido e ensacado.

Era das melhores do município de Cantagalo, e à sua sede embelezava um pavilhão encerrando belíssima coleção de orquídeas, mais de 300 espécies e variedades, muitas das quais exóticas. Achavam-se artisticamente agrupadas em bem armado e elegante jardim à inglesa, próximo da casa.”2

A Fazenda São Clemente se tornou uma das mais importantes propriedades cafeicultoras do município de Cantagalo, acompanhando, passo a passo, o movimento de expansão, o apogeu e a decadência da cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense. Por ela passaram personagens ilustres como o Imperador D. Pedro II, o Dr. Luiz Monteiro Caminhoá e o Barão Johann Jakob von Tschudi.

No dia 26 de fevereiro de 1876, pela manhã, Sua Majestade Imperial, D. Pedro II, acompanhado de grande número de cavalheiros, visitou a Fazenda Areas, pertencente ao Barão de São Clemente, que lhe ofereceu um suntuoso almoço. Regressando, foi o Imperador à Fazenda São Clemente, de propriedade do Comendador Francisco Clemente Pinto, onde foi servido um magnífico lunch. Às 7 horas da tarde jantava Sua Majestade em Cantagalo.

De acordo com Eliana Vinhaes, “a extinção do tráfico intercontinental não criou impacto sobre o município de Cantagalo, uma vez que a reposição da força de trabalho se deu com a regularidade que a economia local exigia”. 3 Desse modo, as décadas de 1850 e 1860 foram tempos de prosperidade, enquanto a de 1870 foi de verdadeiro apogeu para a economia do município, quando foi alcançada uma média de 6.172 pés de café plantados por escravo produtivo. Na mesma época, a média na região de Santos era de 3 mil pés por escravo, e em Capivari, de apenas 2 mil. A produtividade dos antigos Sertões do Macacu era tal que em 1871 o próprio presidente da província do Rio de Janeiro exaltava a importância da Estrada de Ferro de Cantagalo como via de escoamento da produção agrícola da região.4

A queda na produção das plantações de café, motivadas pelo surgimento de pragas nas lavouras e o esgotamento do solo, a Abolição da Escravatura, em 1888, a Proclamação da República, em 1889, e a crise do Encilhamento, a partir de 1890, período de forte agitação financeira, foram fatores determinantes para o fechamento de muitas fazendas que tiveram seus cafezais abandonados. Inúmeras e vultosas fortunas foram perdidas. No ano de 1891, irrompeu uma epidemia de febre amarela em Cantagalo que vitimou parte da população.

Tais fatos fizeram com que os Barões do Café, ou seus descendentes, até o início do século XX, fossem perdendo suas fazendas e demais riquezas que tinham amealhado durante o ciclo do café.

Surpreendentemente, a Fazenda São Clemente superou todas essas crises, produzindo café de boa qualidade, participando, inclusive, da Exposição Universal Colombiana de Chicago, realizada em 1893, na qual o café produzido na Fazenda São Clemente foi premiado. A Exposição de Chicago havia sido pensada para celebrar o quatrocentésimo aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo.

O engenheiro Francisco Clemente Pinto recorreu a um empréstimo hipotecário, em 1907, junto ao Banque Belge de Prêts Fonciers, com sede em Antuérpia e sucursal na cidade do Rio de Janeiro, e como não conseguiu honrar com o financiamento proposto, Francisco Clemente Pinto perdeu a fazenda para o referido banco. Posteriormente, a Fazenda São Clemente foi adquirida pelo Sr. José Affonso Fontainha Sobrinho.

Em 06/7/1920, a Fazenda São Clemente passou ao Clã dos Monnerat, pois, através de escritura pública de permuta, lavrada pelo Tabelião Roquette, da Capital Federal, registrado no 10º Ofício de Notas, Livro 119, folhas 22 a 24, Microfilme 002-23-79, do Arquivo Nacional, houve permuta da Fazenda Paraíso, pertencente ao Coronel João Henrique Monnerat, sua mulher Maria da Veiga Monnerat e Luis José Monnerat, irmão do Coronel João Henrique, com a Fazenda São Clemente, pertencente ao Coronel José Affonso Fontainha Sobrinho e sua mulher Laura Freire Fontainha.

Após o falecimento de Maria da Veiga Monnerat, em 11/3/1924, a propriedade da Fazenda São Clemente ficou em condomínio entre o viúvo meeiro, João Henrique Monnerat e os filhos, herdeiros, José Gil, Carlos Catulino, Hermínia, Edith e Maria Margarida, conforme sentença civil de formal de partilhas, julgada em 25/11/1924.

Com o falecimento de Carlos Catulino Monnerat, em 28/9/1966, e sua mulher Adelaide Sette Monnerat, em 09/02/1976, Carlos Lincoln Monnerat e demais irmãos, incluindo respectivos cônjuges, adquiriram, por sucessão hereditária, julgada por sentença, a propriedade da Fazenda São Clemente, em 28/8/1986.

Em 04/4/1990, Carlos Lincoln Monnerat e sua mulher Maria José Cardoso Monnerat doaram para seu filho Marcello Cardoso Monnerat, através de escritura pública, o respectivo quinhão recebido por herança.

Em novembro de 2001, Marcello Cardoso Monnerat, bisneto do Coronel João Henrique Monnerat, adquiriu dos demais herdeiros todas as partes que estavam em condomínio. Em março de 2002, tomou posse. Posteriormente, foram reincorporadas glebas originárias do Complexo Cafeeiro da Fazenda São Clemente. Assim, a sede histórica da Fazenda São Clemente chegou ao atual e único proprietário e, agora, até vocês.

Cultivar e estudar o desenvolvimento de algumas espécies de plantas da família das Arecáceas (anteriormente conhecida por Palmáceas), bem como composição paisagística foram os objetivos que levaram Marcello Cardoso Monnerat a desenvolver um projeto em Cantagalo, destinado a cultivar e pesquisar espécies de palmeiras. Assim, em março de 1991, Marcello Cardoso Monnerat iniciou o plantio do Pomar-Parque São Uriel, localizado próximo à sede histórica da Fazenda São Clemente. No entanto, o destino, caprichoso, foi Senhor e, em março de 2002, Marcello Cardoso Monnerat viu-se à frente da restauração da sede histórica da Fazenda São Clemente, na época, uma propriedade malcuidada e que necessitava de intervenções imediatas. Assim, precisou interromper a formação do banco de germoplasma de palmeiras. Antes do início dos processos de restauração foram retiradas cerca de duas toneladas de lixo e entulho de dentro dos prédios da Fazenda São Clemente e em seus entornos.


[1] DIAS, Acácio Ferreira. Terra de Cantagalo. Subsídio para a História do Município de Cantagalo. 2ª ed. Cantagalo: Prefeitura Municipal de Cantagalo, 1979, v. 1, p. 212.

[2] Idem.

[3] VINHAES, Eliana. Cantagalo: as formas de organização e acumulação da terra e da riqueza local. Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, 1992. Dissertação de mestrado, p. 110.

[4] VINHAES, Eliana. Cantagalo: as formas de organização e acumulação da terra e da riqueza local. Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, 1992. Dissertação de mestrado, p. 89.